sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

corpo-mente

O próximo debate sobre 'estes dualismos' terá lugar no próximo dia 27, às 18h, na Faculdade de Filosofia. O seguinte texto lança o debate.
Dualismo Corpo-Mente:
algumas reflexões introdutórias


João Carlos Major

Partindo da pressuposição de sermos apenas objectos físicos, ainda que assaz complexos, muitos investigadores defendem que o mental é um estado do físico e que a nossa vida psíquica pode ser reduzida ao produto de uma série de eventos físicos, químicos e eléctricos que ocorrem no nosso cérebro e em todo o corpo, o que cada vez mais parece ser corroborado pelas investigações que colocam de manifesto a influência do orgânico nos nossos estados mentais, pensamentos, emoções e afins.

Na senda do behaviorismo[1] e do positivismo lógico[2], as neurociências de hoje colocam cada vez mais a nu os sistemas neurais que nos permitem ter estados mentais e auto-consciência. Não é de estranhar, como tal, que as inúmeras descobertas do âmbito empírico sustentem as chamadas teorias da identidade, que postulam que os estados mentais não são apenas influenciados pelos estados cerebrais mas que são os próprios estados físicos do cérebro. E parece que os avanços da ciência vão dar, em parte, cada vez mais razão a esta posição. Por isso, uma das actuais linhas de investigação em neurociência procura identificar o correlato neural da consciência, dos comportamentos éticos[3], etc.

Tais teorias identitárias, levadas às últimas consequências, estão na base do materialismo eliminativista, o qual chama à atenção os casos bem sucedidos de pura eliminação de antigas teorias explanatórias, substanciadas, por exemplo, em hipotéticos elementos tal como o flogisto ― que era um fluido imaginado pelos químicos de outrora para explicar a combustão[4]. Assim, o materialista eliminitivista espera um desenlace semelhante, procurando a eliminação pura e simples das antigas ontologias explicativas de carácter dualista e substancialista em favor de uma teoria nova e superior, ansiando com o dia em que as neurociências estejam suficientemente amadurecidas para banir, de uma vez por todas, as nossas limitadas compreensões.

Vocábulos como “desejo”, “dor” ou “crença”, nada mais serão que fantasias emanadas das nossas estruturas neuronais; as mesmas que permitem a maior de todas as ilusões: a de possuirmos consciência, que agora passa a ser entendida como um mero epifenómeno. Por conseguinte, a linguagem da psicologia popular deveria ser abandonada em favor dos conceitos da neurociência. Tal eliminativismo é uma forma recente e radical de naturalismo materialista. Para este, tanto o mental como o corpóreo se apresentam como meras expressões linguísticas, partes de um mundo conceptual definido no âmbito da linguagem e sem um maior alcance do que isso.

Mais do que uma identificação de um com o outro, como faz a perspectiva identitária, o materialismo eliminitivista procura a eliminação de todas as antigas explicações e dos termos da psicologia do senso comum em prol de uma nova e radical forma de compreensão puramente científica[5]. Ainda que a psicologia popular, isto é, o esforço diário dos seres humanos em busca de uma compreensão simples e abrangente da realidade, em muitos casos funcione, podendo até ser o primeiro passo para uma compreensão reducionista, cientistas como Francis Crick[6] e filósofos a eles ligados, como Paul e Patricia Churchland[7], tendem a considerar esta estratégia como tempo perdido. Segundo eles, se o que almejamos é a redução, porque não iniciá‑la desde já? Então, urge olhar para dentro da caixa negra e observar como os seus componentes se comportam.

É a posição redutora a que apresenta mais adeptos no âmbito das fileiras da ciência. Afinal, aparece como a mais próxima da investigação empírica e dos factos da natureza.

Por outro lado, a corrente oposta – o fisicalismo não‑redutor[8]procura contrastar a crua declaração do fisicalismo redutor, na qual se defende que a natureza é tudo, e que da matéria veio tudo o que existe, sendo tudo explicado pela própria matéria e suas leis. Em sentido contrário, o fisicalismo não‑redutor pretende superar este tipo de visão pela defesa da existência de um nível ontológico superveniente à matéria, mas sem invocar qualquer tipo de dualismo.
Tal perspectiva considera que, pelo menos algumas propriedades de um nível mais elevado, em particular as propriedades cognitivas e/ou psicológicas, formam um domínio autónomo e irredutível ao físico. Isto significa que a psicologia é uma ciência especial cujo objecto é investigar as relações envolvidas nessas alegadamente irredutíveis propriedades e explicá‑las nos seus próprios termos. Desta forma, tais leis e explicações não poderão ser formuladas em termos puramente físicos. Por conseguinte, tal doutrina defende a autonomia da psicologia e, de uma forma genérica, a autonomia das ciências especiais em relação à física de base.

Neste contexto, frequentemente é evocada a noção de “emergência”, que é o processo de derivar novas e coerentes estruturas, padrões ou propriedades (em especial a consciência e a intencionalidade) de um sistema complexo. Os fenómenos emergentes ocorrem devido ao padrão de interacções entre os elementos de um sistema ao largo do tempo. Tais fenómenos são normalmente imprevistos, são o resultado não esperado de interacções relativamente simples entre componentes também relativamente simples. Neste sentido, o que distingue um sistema complexo de um meramente complicado é que os padrões de funcionamento e os comportamentos de um sistema complexo emergem como o resultado das relações de elementos menos complexos e, até, elementares. Assim, as características emergentes surgem quando um número de entidades simples, ou agentes, operando em conjunto, manifestam comportamentos mais complexos, fazendo com que um sistema composto de elementos mais simples produza propriedades que as suas partes constituintes em si não possuem. Para complicar ainda mais, estas novas propriedades aparentemente possuem poderes causais sobre o que as rodeia e, por vezes, sobre os seus próprios elementos de base.

Um exemplo de emergência é o da água (H2O). A água pode encontrar‑se macroscopicamente em diferentes estados físicos (sólido, líquido e gasoso), mas as moléculas que a constituem (o hidrogénio e o oxigénio) não possuem tais propriedades. O comportamento complexo ou as propriedades emergentes não são uma característica dos agentes considerados individualmente, nem podem ser, normalmente, preditos ou deduzidos do comportamento das entidades mais baixas de tal hierarquia. É a partir da organização e da interdependência entre as várias moléculas que constituem a água que a emergência de tais características acontece, ainda que não sejam compartilhadas por nenhum dos gases isoladamente, mas surgem porque passaram a pertencer a um sistema de um nível hierárquico superior: o da água.

O número e a subtileza destas propriedades pode ser, por conseguinte, muito maior à medida que se aumente o número de agentes. É o que acontece quanto ao número de modos com que podemos empilhar objectos num determinado local, o número de modos aumenta exponencialmente se formos aumentando o número de objectos. Por sua vez, as propriedades emergentes podem surgir não apenas entre as partes simples de um sistema, mas também entre propriedades já de si emergentes, elevando a complexidade, porventura, para além da capacidade do intelecto humano.

De acordo com esta visão emergentista e sistémica, pode dizer‑se que a mente emerge das conexões entre os neurónios e, desde uma tal perspectiva, não é necessário pressupor a existência de uma “alma” para explicar o facto de um cérebro poder ser inteligente, mesmo que os neurónios considerados isoladamente não o sejam. Embora a mente (como a inteligência e a auto‑consciência) seja um processo acrescido dos processos cerebrais, não existe fora da nossa membrana, que é a pele. Ou seja, não é uma substância que existe “lá fora”, como em Descartes, onde tem uma substancialidade à parte.

O problema parece surgir quando tais propriedades sistémicas ou emergentes parecem ganhar vida própria, passando, aparentemente, a ter um estranho controlo ou poder causal sobre as suas partes constituintes.

É sobre estes e outros aspectos que procuraremos reflectir na palestra do próximo dia 27.

[1]Que não procurou “negar” a existência dos estados mentais, antes desejou aplicar os cânones da ciência, isto é, os ideais de previsibilidade e controlabilidade, na consideração dos eventos privados, no sentido de tornar científico e sistemático o projecto de pesquisa da conduta humana.
[2]Que influenciou a posição behaviorista na medida em que o significado de uma sentença estaria ligado ao exame das circunstâncias observáveis, o que levaria a verificar a validade de uma sentença proferida.
[3]Cfr. Steven Marcus (Ed.), Neuroethics: Mapping the Field (San Francisco: Dana Foundation, 2002).
[4]As investigações de Lavoisier, completando os trabalhos de Priestley e Cavendish, destronaram a teoria do flogístico ou flogisto, interpretando correctamente calcinações, combustões e outras reacções de oxidação, lançando deste modo os fundamentos da análise orgânica quantitativa. As suas teorias tornaram‑se conhecidas através do Traité Élementaire de Chimie, publicado em 1789.
[5]Cfr. Paul Churchland, Matter and Consciousness, p. 43.
[6]Cfr. Francis Crick, A Hipótese Espantosa: A Busca Científica da Alma (Lisboa: Instituto Piaget, 2000).
[7]Patricia Churchland, “Can Neurobiology Teach Us Anything About Consciousness?”, in Harold Morowitz; Jerome Singer (Eds.), The Mind, The Brain, and Complex Adaptive Systems (Reading: Addison‑Wesley, 1995), pp. 99‑121.
[8]Por vezes chamado de “dualismo de propriedades” (cfr. Jaegwon Kim, “Physicalism”, in Robert Wilson; Frank Keil (Eds.), The MIT Encyclopedia of the Cognitive Sciences, p. 645).

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

'este mundo e o outro'

O encontro sobre o dualismo 'este mundo e o outro' não terá lugar na próxima quarta-feira, 6 de Fevereiro, mas em data a ser anunciada posteriormente.

domingo, 27 de janeiro de 2008

natural-sobrenatural

Na próxima quarta-feira, 30 de Janeiro, realiza-se às 18h mais um encontro de debate sobre 'estes dualismos que nos perseguem'. Desta vez, João Duque, docente da Faculdade de Teologia, abordará o dualismo 'natural-sobrenatural'.



O termos em análise devem tomar-se, antes de tudo, como adjectivos. Mas que adjectivam eles, afinal? Poderíamos falar em vida natural e em vida sobrenatural. Ou, talvez melhor e de modo mais abrangente, em mundo natural e mundo sobrenatural.

Mas o que são esses mundos? O que é um mundo, afinal? Partindo do pressuposto que um mundo é uma interpretação do real (entendendo aqui «real» como tudo aquilo que, simplesmente, é), então, os adjectivos são qualificações de interpretações do real. Ou então, são duas dimensões de uma determinada interpretação do real – por isso, também, duas dimensões do real (não propriamente duas realidades).

Que significa, então, interpretar o real como natural? Talvez como algo necessário (natural lógico); ou como algo dentro das capacidades da natureza (natural ontológico); ou aquilo que podemos explicar (natural epistemológico).
E o que significa a adjectivação de sobrenatural? A consideração do gratuito, do livre, para além da necessidade; ou a consideração do que vai além das possibilidades de determinada natureza; ou então, o inexplicável e inacessível ao conhecimento (mesmo, num desvio estranho mas frequente, o «oculto»).

Mas que necessidade natural ou que natureza origina a natureza? Será o mundo naturalmente natural? E onde se dá – fenomenicamente – o mundo sobrenatural? Dentro ou fora do natural? Não será o mundo naturalmente sobrenatural e sobrenaturalmente natural?

Mas não será possível, mesmo legítimo, interpretar o mundo apenas naturalmente? E mesmo que consigamos uma perfeita simbiose das duas dimensões, porquê a sua utilização, então? Mesmo que abandonemos uma posição dualista ou separatista, que pudesse identificar esses dois mundos como realidades independentemente subsistentes, fará ainda sentido utilizar a distinção entre dimensão natural e dimensão sobrenatural do mundo? Fará sentido, mesmo lógico, falar em natureza sobrenatural ou em sobrenatureza natural? Devemos, então, abandonar esses adjectivos clássicos da teologia e da filosofia, ou farão ainda algum sentido? Ou não resultam esses problemas da ausência de um pensamento analógico, que funciona mais em termos de univocidade e de equivocidade?

Para repensar a questão, talvez ajude introduzir as noções de secularização e de imanentismo. Qual o significado da distinção natural-sobrenatural, perante as realidades albergadas nessas noções?
João Duque

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

natureza-graça

Na próxima quarta-feira, 23 de Janeiro, às 18h, terá lugar na Faculdade de Filosofia, sala 3.1, o debate orientado por Manuel Sumares em torno do dualismo 'natureza-graça'.

O seguinte texto lança desde já o debate.



“We imagine that the gratuitous needs to be contrasted with the obligatory or the inherent; yet this only applies to the interactions between beings in the ontic realm. In the realm of the ontological difference, of the creative emergence of entia from esse, gratuity arises before necessity or obligation and does not require this contrast in order to be comprehensible. The creature is not the recipient of a gift; it is this gift.”

--- John Milbank, The Suspended Middle: Henri de Lubac and the Debate Concerning the Supernatural, p. 43.

O ponto de partida para a nossa reflexão:

“p” is true iff p in w/t
“p”= “creation is always/ already graced”
p = creation is always/ already graced (or “gifted”)
w= world
t= time
Hence, “Creation is always/ already graced” is true if and only if creation is effectively always/ already graced in a determinate world and within a determinate timeframe.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Inconsciente – consciente

No próximo dia 16 de Janeiro, às 18h – sala 3.1
José António Alves abordará o dualismo 'consciente-inconsciente'
Este texto lança desde já o debate

A Consciência apresenta-se, depois de Descartes, como a propriedade essencial da mente humana. Trata-se de uma propriedade que todas as propriedades devem ter para ser consideradas de propriedades mentais. Por exemplo, o pensamento só é propriedade mental enquanto pensamento consciente. Tanto Descartes como outros pensadores não se preocupam em fazer uma análise da consciência, pois esta apresenta-se-lhes como sendo uma propriedade cuja natureza se manifesta na experiência. Outro aspecto que Descartes focaliza é o factor unificador da consciência, reunindo os estados mentais num único local denominado de Ego. Assim, para Descartes, a consciência é a base da certeza. A consciência é a luz que ilumina tudo que cai sobre a sua alçada.

A esta posição de Descartes opôs-se Leibniz falando de percepções e pensamentos inconscientes. Leibniz desfaz a igualdade de Descartes segundo a qual a mente era igual à consciência. Deste modo, contra as ideias vigentes na época, abriu espaço à ideia de que processos inconscientes afectavam a formação de pensamentos, julgamentos e tomadas de decisões. Ora este modo de pensar não podia estar mais contra o século da razão e a ideia de que o ser humano tudo controla.
Focalizo estes dois autores, Descartes e Leibniz, porque são os dois pensadores que se pode considerar estarem na origem dos dois conceitos que se contrapõem nesta apresentação: consciente e inconsciente.
E o que é que está em contraposição? Apenas dois conceitos? Duas visões de mundo? Dois substantivos ou dois adjectivos? Serão duas realidades claramente separadas? Que papel desempenham na vida humana? Esboçam, os dois conceitos, um dualismo que nos persegue positiva ou negativamente ou não há dualismo nenhum?

Para a apresentação não se perder no meio das múltiplas possibilidades de abordar esta temática, baixa-se o enfoque sobre a acção humana.
Estudos empíricos sobre a consciência humana têm mostrado dados curiosos. Um desses estudos é o do neurocientista americano Benjamin Libet.
A consciência, como muito bem viu Descartes, evidencia-se como uma das coisas de que mais o ser humano é certo. Mais, a certeza da consciência é de que tudo se experimenta imediatamente no seu espaço diáfano. Quer a experiência diga respeito à percepção, quer a experiência diga respeito à vontade de querer agir, acontece sempre aqui e agora.

Na década de 1950, Benjamin Libet desenvolveu uma investigação sobre a consciência humana da qual concluiu que a consciência humana está meio segundo atrasada em relação à ocorrência dos estímulos do sistema nervoso. Concluiu que a experiência consciente não é imediata. Mas mais que isso. Em estudos subsequentes, sobre a liberdade humana, veio a concluir que antes do ser humano tomar consciência da vontade de querer agir já o cérebro desencadeara os processos cerebrais associados a determinada acção.

Será a consciência uma mera ilusão? As acções e decisões, que parecem conscientes, no fundo serão meros processos inconscientes? Quem realmente controla o ser humano, a consciência ou o inconsciente?

O inconsciente foi um conceito que demorou a conquistar o seu espaço na cena intelectual. Contudo, desde que Leibniz o trouxe à luz do pensamento, tem sido um conceito em franco desenvolvimento. Inclusive, não se exagerará muito ao dizer que tem tomado o lugar que a consciência teve. São muitos os estudos no âmbito das ciências cognitivas que apresentam a tese da ilusão da consciência para afirmarem a força dos mecanismos inconscientes da mente humana. E até se afirma, concretamente o psicólogo Julian Jaynes, que a consciência é um fenómeno recente na história do homo sapiens. Data apenas de, mais ou menos, há 2500 anos. Encontrar-se-á na Ilíada os seus primeiros vestígios. Parece que quanto mais se estuda o assunto mais se sublinha esta tendência de valorizar o inconsciente em detrimento do consciente.
Tem havido modos diferentes de conceber o inconsciente. Desde o romantismo que sublinhava a agência independente dentro da mente capaz de criar obras de arte de se organizar numa identidade, a uma versão mais mecanicista, segundo a qual a mente humana é regida por mecanismos inconscientes que funcionam através de processos impessoais e desinteressados, até à versão do incontornável Freud para quem o inconsciente é a verdadeira realidade psíquica.
Porém perguntar-se-á: se o interessante é o inconsciente e a consciência é uma ilusão, porque a é de um modo tão constante e tão espalhado pela humanidade? Se é possível explicar o comportamento sem a consciência, porque estará ela sempre presente? Qual será o seu papel? Se os processos inconscientes parecem ter tanto espaço e tanta eficiência, porque se deu a natureza ao trabalho de colocar na espécie humana a consciência?
A defesa do automatismo sugere que a perfeição nada tem a ver com sermos conscientes. Sabemos que há órgãos que perderam a função orgânica do passado. No entanto, porque razão a consciência, na mesma linha da defesa do automatismo, nunca teve, não tem e nem mostra probabilidades de vir a ter alguma função?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Faculdade de Filosofia
Projecto de Investigação Epistemic studies (2007-2010)
Seminário: “Estes dualismos que nos perseguem”
2007-2008

Calendarização

Novembro 7: Alfredo Dinis: corpo-alma
Novembro 21: Pedro Cruz: verdade-mentira
Dezembro 12: Artur Galvão: racional-irracional
Janeiro 16: José António: consciente-inconsciente
Janeiro 23: Manuel Sumares: natureza-graça
Janeiro 30: João Duque: natural-sobrenatural
Fevereiro 6: Joana Sá Ferreira: este mundo e o outro
Fevereiro 27: João Carlos Major: mente-cérebro
Março 5: Susana Moreira: ensinar/aprender
Março 12: Manuel Curado: a bruxa e o Inquisidor
Abril 2: Francisco Teixeira: Deus e o diabo
Abril 9: M. Fátima Lobo: homem-mulher
Abril 16: José Henrique: bem-mal
Abril 23: Roque Cabral: indivíduo-sociedade
Abril 30: J. M. Dias Costa: sagrado-profano
Maio 7: J. R. Costa Pinto: imanência-transcendência
Maio 14: Álvaro Balsas: tempo-eternidade
Maio 21: Ângela Azevedo: cognição-emoção
Maio 28: Carlos Morais: belo-bruto
Junho 4: António Fonseca: jovem-idoso

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Racional-Irracional

Na próxima quarta-feira, 12 de Dezembro, terá lugar na Faculdade de Filosofia, às 18h, o terceiro encontro do Seminário ‘estes dualismos que nos perseguem’. Artur Galvão, docente do curso de Filosofia da Faculdade de Filosofia abordará o dualismo racional-irracional. O texto seguinte pretende lançar o debate.


Os antigos gregos concebiam o ser humano enquanto «animal racional» devido à sua capacidade linguística e de decisão. Desse modo, a razão era o sinal da distinção, glória e superioridade do homo sapiens face aos restantes seres vivos. A racionalidade seria o uso apropriado da razão para calcular o melhor modo de actuar, ou seja, procurar boas razões para decidir (desde a escolha da profissão ou da namorada até à escolha da teoria a defender ou da sentença a dar no tribunal).

Porém, um simples olhar sobre a nossa vida – ou sobre a sociedade em geral – leva-nos à constatação de que uma grande parte das opções é realizada desconhecendo muitas e boas razões que, caso as conhecêssemos, certamente nos levariam a outra decisão ou que contrariam deliberadamente as boas razões que possuímos. Pensemos, para o primeiro caso, em alguém que escolhe um determinado curso universitário e depois percebe não ter feito a melhor escolha e, para o segundo, num fumador que tem todas as razões para deixar de fumar e, mesmo assim, não o faz.

Podemos, então, perguntar: Será a racionalidade um mero cálculo? Para que serve? Terá justificação? Será o homem racional mais feliz que o irracional?

Estas questões levam-nos directamente ao problema da irracionalidade. O termo «irracional» tem um cunho marcadamente pejorativo, sendo, geralmente, pensado como a antítese do racional. Por isso, não é alvo de muita reflexão ou interesse. No entanto, a desvalorização do irracional parece perder todo o seu sentido, quando constatamos as possibilidades oferecidas por mecanismos de decisão não-racionais, tais como as lotarias ou sorteios. No futebol sorteia-se a escolha de campo, no tribunal os juizes sorteiam-se quem fica com o processo A e quem fica com o B, na escola o aluno sorteia uma das opções do teste de escolha múltipla.

Consequentemente: Será o caracoroismo uma forma de decisão pior do que a procura de boas razões? Fará sentido manter o dualismo racional-irracional? E o dualismo razão-sentimento?